O forró é ao mesmo tempo um ritmo, um tipo de festa e um estado de espírito — a palavra no Brasil designa tantas coisas que fica difícil dar uma definição que satisfaça todo mundo. Mas existe um fio que conecta o forró pé de serra de Luiz Gonzaga ao forró eletrônico de Wesley Safadão: os dois nasceram no Nordeste, os dois têm o São João como contexto cultural e os dois fazem as pessoas quererem dançar.
A Origem da Palavra (e a Polêmica)
A história mais popular sobre a origem de “forró” é a de que a palavra vem do inglês “for all” — uma abreviação de “forrobodó”, nome dado aos bailes abertos que os engenheiros ingleses que construíam a Estrada de Ferro no Nordeste no século XIX organizavam para os trabalhadores. O cartaz dizia “for all” (para todos), e o nome ficou.
Pesquisadores de folclore, incluindo Câmara Cascudo, contestam essa versão e atribuem a origem da palavra ao termo africano “forrobodó” que já existia no vocabulário brasileiro antes da ferrovia. A polêmica continua, mas o nome ficou em ambas as versões da história.
Os Três Tipos Principais de Forró
Forró pé de serra (ou raiz) é o mais antigo e o mais respeitado pelos puristas. Usa a sanfona (acordeão), o zabumba (bumbo) e o triângulo como instrumentação básica — a famosa “zabumba, triângulo e sanfona” que Luiz Gonzaga popularizou a partir dos anos 1940. O ritmo inclui o baião, o xote e o xaxado. É o forró que toca em Caruaru, no Alto do Moura e nos arraiais do interior nordestino.
Forró universitário (ou forró das antigas) surgiu no Rio de Janeiro e em São Paulo nos anos 1990, quando estudantes nordestinos migrantes criaram festas com um estilo próprio — mais lento que o pé de serra original, mas usando instrumentação acústica similar. É o estilo do Falamansa, da Raízes do Forró e de grupos que popularizaram o forró para um público sulista e urbano.
Forró eletrônico (ou forró estilizado) é o que toca nas rádios nordestinas desde os anos 1990 e dominou os grandes palcos do São João de Campina Grande e Caruaru nas últimas décadas. Usa guitarra elétrica, teclado e bateria em vez dos instrumentos tradicionais. É o forró de Wesley Safadão, Xand Avião e Calcinha Preta. Tem uma energia completamente diferente do pé de serra — mais alta, mais intensa, mais voltada para o espetáculo.
Luiz Gonzaga: O Rei do Baião
Nenhuma conversa sobre forró é completa sem Luiz Gonzaga (1912–1989), nascido em Exu, no Pernambuco. Foi ele quem levou o som da sanfona nordestina para o Rio de Janeiro nos anos 1940 e transformou o baião em gênero nacional. “Asa Branca”, “Baião”, “Xote das Meninas”, “Luzia” e “Nordeste Pra Mim” são composições dele que qualquer arraial de São João toca até hoje.
A importância de Luiz Gonzaga não é só musical — é política. Em um Brasil que via com condescendência a cultura nordestina, Gonzaga transformou a sanfona em símbolo de orgulho regional e o cangaço, o sertão e a saudade da terra em matéria-prima para uma música que o país inteiro passou a amar.
Músicas Clássicas do São João
Se você vai a um arraial de São João, essas músicas vão aparecer — em alguma versão:
- “Asa Branca” (Luiz Gonzaga / Humberto Teixeira) — o hino não oficial do São João
- “Baião” (Luiz Gonzaga / Humberto Teixeira)
- “A Dança da Minha Gente” (Mastruz com Leite)
- “Forro na Palhoça” (Dominguinhos)
- “Eu Só Quero Um Xodó” (Dominguinhos / Anastácia)
- “Saudade” (Zé Ramalho)
- “Tanta Saudade” (Elba Ramalho)
Em Campina Grande 2026, Elba Ramalho se apresenta na véspera do São João (23 de junho). É impossível assistir a Elba sem ouvir pelo menos três clássicos juninos.
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Fontes: Câmara Cascudo — Dicionário do Folclore Brasileiro, IBGE, Instituto Luiz Gonzaga, pesquisas de etnomusicologia da UFPE.
